SE FOR PÚBLICO, É DE TODOS

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Quem nunca ouviu a célebre expressão: “isso aqui é público”. Quando dita para ressaltar os valores democráticos e o zelo por aquilo que é de uso e domínio comum, excelente. Porém, em geral, o sentido empregado leva ao oposto. É incrível a facilidade, muitas vezes tirana, que se tem no Brasil de privatizar os espaços e bens públicos ou torná-los terra de ninguém.

Sem comparar as implicações e os impactos gerados em cada atitude que vou mencionar, é com a mesma naturalidade dos políticos que usurpam o dinheiro do povo que muitas pessoas jogam objetos nas ruas, sujam prédios e monumentos, danificam livros de uma biblioteca, exaurem recursos naturais, depredam espaços de convivência, corrompem e deixam-se corromper.

A visão é tão cega e parcial que rapidamente nos indignamos quando os homens do poder legislam em causa própria, desviam recursos, usam a máquina pública em benefício de si mesmos ou de parentes e aliados. Ninguém tem dúvida de que estão metendo a mão no nosso bolso. Porém, alguém percebe como se fosse o sofá de casa quando coloca os pés em cima do banco da praça? Ou que a bituca de cigarro jogada na rua, no pátio da escola, da delegacia, da prefeitura empesteou a própria sala de estar?

Tem coisas que não causa nem embaraço confessar:

– Encontrei um amigo que já estava lá na frente na fila. Estava com pressa. Aí, sabe como é né?

Ah, claro, ninguém mais tinha outros compromissos ali. E afinal, que causa é mais nobre do que a pessoal?

O que falta à nossa República, na verdade, é mais Espírito Republicano – um ideal de supremacia do bem público e do interesse comum. E isso não se faz sem algum sacrifício. É necessário abrir mão do desejo particular e das vantagens privadas em função do dever e compromisso públicos, promovendo o princípio igualitário de que todos mandam e todos igualmente obedecem.

Assim como o governante deve sujeitar-se às mesmas regras dos demais cidadãos, o cidadão também precisa entender que goza dos mesmos direitos e deveres de todos os outros. Do contrário, o poder jamais emana do povo e para o povo.

É impossível cultivar valores democráticos, de fato, na ausência de autonomia e auto-governo, não apenas no campo do poder político institucional, como nos mais variados âmbitos da sociedade. E o exercício começa por reconhecer que o que é público tem dono sim, e muitos: todos nós.

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