Quem vai abrir a caixa-preta?

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Esmola muita até santo desconfia. E nem mesmo pouca dá para o manhuaçuense acreditar. Como ventilado nesta coluna, caminhamos para mais uma eleição plebiscitária. A tradicional toada ecoa à porta: baião de dois – apenas duas propostas em disputa pela prefeitura.
Se era esse o anseio de importantes lideranças políticas regionais em Belo Horizonte e Brasília, estão bem perto de realizar seu intento. E por um caminho mais cômodo. Nas últimas semanas, tentaram costurar a todo custo uma fusão de grupos, o que eliminaria pela via dos acordos de bastidores uma das candidaturas. Como de praxe, o casamento custaria a concessão de cargos e secretarias. Porém, não passou do flerte.
A pluralidade é um importante amplificador da democracia. Quanto mais vozes – de preferência dissonantes – melhor. Ainda mais nas disputas eleitorais contemporâneas, em que as plataformas políticas, de modo geral, se articulam em torno de temáticas específicas e não com base em projetos abrangentes de organização da sociedade. Ou seja, o eleitor escolhe de acordo com a resposta mais profícua ao tema que é prioridade no momento.
Num cenário conturbado como o que Manhuaçu vive atualmente, honestidade e transparência certamente ocuparão a ordem do dia. No entanto, há muito tempo a população carece de respostas e soluções concretas para algumas questões fundamentais, jamais abordadas por um discurso meramente eleitoreiro.
Alguém sabe quanto a prefeitura deve hoje? Qual o comprometimento do orçamento? Os recentes escândalos no Samal e no SAAE revelaram apenas uma face da obscura realidade do município. Em precatórios, por exemplo, a dívida passaria dos R$ 60 milhões. Existem ordens judiciais pendentes de pagamento há quase duas décadas.
O rombo ainda envolve débitos com Fundo de Garantia, IPSEMG e INSS. Pelo menos 60 servidores municipais estão impedidos de se aposentar porque não tiveram as contribuições regularmente depositadas pela prefeitura. É o saldo de anos e anos de ingerência e corrupção, com gestores públicos sendo processados e cassados, funcionários sumariamente demitidos por envolvimento irregularidades e, mesmo assim, ausência praticamente total de oposição na Câmara de Vereadores, na imprensa e nas ruas.
Especula-se que seriam necessários dois anos só para colocar as finanças do município em ordem. Contudo, qual dos nossos candidatos teria coragem de sacrificar metade do mandato para pagar conta dos “outros”? É o tipo de responsabilidade que só assume quem não teme adotar medidas impopulares, quando estas são efetivamente indispensáveis. Uma postura que não combina com alianças amplas e irrestritas – seja com pessoas, partidos ou empresas. A prática eleitoral já mostrou: aquele que oferece apoio vai exigir algo em troca. E na presente conjuntura política manhuaçuense, o que promete mundos e fundos – pra quem quer que seja – fará com que tudo continue do jeito que está: uma caixa-preta.

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns pela matéria, grande Lauro. 
    O único que pode decidir sobre a abertura dessa caixa preta é o eleitor. E, desta vez, pelo menos temos um candidato que, eleito, irá fazê-lo, que é o Nailton.
    Também na câmara, com certeza, pela renovação que desponta, teremos pelo menos um que não se calará diante das ameaças do poderio econômico e social de Manhuaçu.

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