O papel do palco na democracia de plateia

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O palco está armado e o elenco em ação. O embate no mundo da política não cessa. No entanto, seu ritmo é substancialmente acelerado no período eleitoral. É quando a corrida pelo poder ganha maior notoriedade, sob a égide da propaganda midiática. Por isso, a analogia criada pelo cientista político francês Bernard Manin mostra-se tão adequada: atores (candidatos), eleitores (plateia) e mídia (palco).

A opinião pública no atual estágio da nossa representatividade governamental passou a ser muito dependente dos meios de comunicação de massa, que se tornaram importantes fontes de informação política. Os debates também não são mais promovidos em fóruns fechados, como parlamentos ou partidos. Pelo contrário, ganham visibilidade principalmente no espaço público midiático. Até mesmo disputas partidárias internas são exploradas pela imprensa.

Com efeito, num cenário ambientado pela mídia, a relação dos candidatos com o eleitor desenvolve-se mais amiúde a partir dos meios de comunicação de massa. Esse contato tem caráter pessoal, mas agora não diretamente e sim pela mídia, o que tem acarretado alguns antagonismos quando se analisa a ‘biografia midiática’ de diversos candidatos. A realidade, muitas vezes, mostra uma grande disparidade entre o que aparece nos jornais, na TV e no rádio e as ações políticas propriamente ditas.

Menos dependentes da carreira construída nas fileiras partidárias do que da habilidade e talento em se comunicar com a opinião pública pela imprensa, figuras – novas e tradicionais – constroem personagens adaptados às exigências da mídia. E para atingir o objetivo, bem mais eleitoreiro do que eleitoral, apostam numa mensagem positiva de suas propostas, governo ou plano de governo, mesmo que não sejam factíveis. Confiam na remota possibilidade de verificação das (in)verdades que alardeiam.

Neste contexto, a mídia não é só um palco – um ente inanimado e, portanto, indiferente aos propósitos envolvidos na disputa – e sim um ator que tem interesses próprios a defender. A imprensa atua de forma ativa na construção de realidades políticas, colocando-se como agente que interfere no processo político-eleitoral. Cabe ao cidadão/eleitor discernir a cor de cada veículo de comunicação – marrom, rosa, chapa branca. Claro que há também aqueles sem matiz definida, que pendem pra qualquer ponto da aquarela, de acordo com o valor ou favor oferecido.

Particularmente, nesse quesito, prefiro imprensa acromática, que trabalha em defesa do interesse público.

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