O CÉU DA FÉ E O CÉU DA RAZÃO

0
82
lauro-moraes

Apesar de todo o progresso científico acumulado pela humanidade e de todo o esforço de algumas vertentes das ciências na negação de entes divinos e espirituais, a religiosidade permanece no imaginário coletivo, orientando dialeticamente a vida dos indivíduos.

A religião é uma manifestação da cultura espiritual e os ideais religiosos sempre foram importantes para a coesão social, desde as comunidades arcaicas. Hoje, observadamente, também promove cisões. Contudo, independente do tempo e do espaço, existem valores religiosos que continuam intocados e imutáveis. Sobretudo nesta sociedade secularizada, de costumes profundamente liberalizados e com agudos traços individualistas, há uma forte propensão dos indivíduos a buscar acolhimento e reconhecimento nas comunidades religiosas.

Esses grupos funcionam como tribos modernas, nas quais o ser humano busca a razão de ser, pois é na coletividade que ele se realiza e se orienta. Daí a tendência das pessoas de buscar propostas religiosas mais receptivas, em que o grau de participação na produção dos bens simbólicos é maior, permitindo, por conseguinte, que se sintam reconhecidas. Essa busca explica o porquê de tantas migrações das religiões tradicionais para outros ambientes religiosos – mais “acolhedores” – na atualidade.

A bem da verdade, a religiosidade do século XXI não está fundamentada em ideais teológicos ou doutrinários fixos, e muito menos numa fidelidade institucional. Há até uma espécie de “nova espiritualidade” em que os indivíduos têm tomado a liberdade de construir a sua própria religiosidade, muitas vezes com elementos de diversas vertentes religiosas, mesmo que contraditórias.

Tudo isso mostra o quão fundamental é a religiosidade para se compreender as sociedades humanas, pois cumpre papel preponderante na transformação e/ou na manutenção de condutas e estruturas sociais. Em alguns casos, assume até mesmo função política, como as guerras religiosas da Irlanda, o retorno do Islã integrista no Irã ou o crescimento dos misticismos em resposta à crise do Ocidente. Desconsiderar ou tentar diminuir a religião é, portanto, uma atitude dogmática.

Não compete à ciência determinar a existência ou inexistência das divindades, nem à religião ser a explicação científica do mundo. Uma abre os horizontes para a razão, a outra para o transcendente. São conhecimentos com perspectivas, objetivos e métodos distintos, cuja dessemelhança foi sintetizada da seguinte forma pelo renomado e cético paleontólogo Stephen Jay Gould: a ciência se interessa pelo tempo, a religião pela eternidade; a ciência estuda como funciona o céu, e à religião importa como ir para o céu.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here