NOTÍCIA: UM PRODUTO À VENDA?

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A influência dos meios de comunicação nos rumos de determinados fatos é frequentemente questionada. Em determinados momentos, até constata-se que o saldo não é tão positivo quanto deveria, mas ninguém prescindiria da presença da imprensa numa sociedade que pleiteia ser ou ao menos se diz democrática. Quem viveu a repressão de regimes ditatoriais sabe bem o que isso significa.
As grades aprisionam o corpo. Porém, sem liberdade de expressão, está presa a alma. E avaliando a cobertura midiática local e regional de diversas regiões desse imenso país, ouso esboçar um diagnóstico comum para muitos municípios: se não falta liberdade, falta, no mínimo, informação sobre as questões mais fundamentais da vida pública.
Licitações irregulares, obras superfaturadas que se arrastam por meses ou até anos para serem concluídas, cooptação de vereadores pelo Executivo, rejeição de contas de prefeituras, ações judiciais contra gestores. É inimaginável que escândalos como esses ocorram e nada vá para as páginas dos jornais e noticiários de rádio e TV. Infelizmente, as barganhas e trocas de favor típicas da política personalista brasileira são o caminho que muitos veículos de comunicação buscam para sobreviver.
Faço parte da geração de jornalistas forjados na virada do século XXI, mas que ainda acredita em alguns valores clássicos da profissão. Um deles é de que imprensa e poder não devem andar de mãos dadas. A combinação pode até ser perfeita para os interesses políticos e econômicos em jogo, mas perversa para o interesse público.
Com efeito, as aberrações criadas por esse enlace vão além da contaminação político-ideológica do conteúdo “jornalístico”. Aceita-se com muita naturalidade, por exemplo, que o jornalista, ou alguém que tão somente se autointitula como tal, trabalhe concomitantemente em veículos de comunicação e em assessorias de empresas, entidades de classe e órgãos públicos. Que isenção esse profissional vai ter se algum assessorado envolver-se num escândalo ou irregularidade qualquer? Vai assumir o papel de jornalista ou de assessor?
Convenhamos que imprensa oficial camuflada de imprensa livre não dá. E mesmo que fazer jornalismo 100% independente, imparcial e objetivo seja utopia, não é puritanismo nenhum reconhecer que existem limites éticos para o exercício da atividade. Ainda que os ganhos, sobretudo no interior, sejam pífios, é possível – e necessário – viver dignamente desse ofício. Lei da sobrevivência vale pra selva, não para as redações.

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