Língua Traiçoeira

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Não é de hoje que grande parte dos meios de comunicação de massa se dirige aos seus consumidores de informação e entretenimento de maneira maniqueísta e dicotômica. Muitas vezes, imagens e palavras aparentemente neutras são, na verdade, ordenadas, hierarquizadas, transmitidas e “contaminadas” pela ideologia de quem as manipula. A escolha, o enfoque, a forma de conduzir uma discussão depende de condicionamentos culturais e históricos. E não é raro que interesses partidários, econômicos e geopolíticos mediatos e imediatos também estejam presentes.

Recentemente, com a ascensão de Dilma à presidência, o uso da palavra ‘presidenta’ como feminino de ‘presidente’ ganhou destaque na imprensa. Entre comentários úteis e fúteis acerca do assunto, tive a ingrata surpresa de acompanhar um em que o comentarista insistia que tal forma de tratamento seria totalmente errônea.

Não bastasse o desconhecimento, pois as duas formas, linguisticamente, são corretas e plenamente aceitáveis, a abordagem do assunto carregava uma crítica vazia e velada por um posicionamento supostamente isento em relação à Dilma, simplesmente pela forma como vem sendo tratada desde quando assumiu o Palácio do Planalto.

É o típico proselitismo político que usa o espaço público, mas não contribui em nada com o debate da vida pública. E o mais grave, com o sério risco de transformar, em poucas palavras, o certo em errado – como ocorre com certa frequência no Brasil, aproveitando-se da credibilidade e legitimidade do discurso midiático. Quantas pessoas terão sido convencidas e mobilizadas pelo infeliz comentário?

O mais intrigante nesse caso nem é a equívoca explicação. Surpreende que ainda haja lugar na imprensa para esses disparates, destinados tão somente a confirmar determinada percepção de mundo, forjada por um partidarismo incoerente e oportunista.

Se algo de bom restou, ao menos uma regra ficou clara: o poder de simulação da mídia é ainda mais nocivo quando dá voz a quem não tem o que dizer.

Lauro Moraes

1 COMENTÁRIO

  1. A eleição inédita no Brasil de uma mulher para a Presidência da República lançou uma questão linguística: Dilma Rousseff é “a presidente” ou “a presidenta” do país?

    O tema – qual das duas formas está correta? – passou a ganhar espaço na mídia à medida que o bom desempenho da candidata ia sendo apontado pelas pesquisas de intenção de voto. Jornais, colunas e blogs dedicaram-se a investigar, além do passado da candidata e de seus atributos como postulante ao cargo mais importante da nação, uma suposta tendência de Dilma de usar a palavra “presidenta”, especialmente em seus comícios.

    Com a concretização da vitória, o que era uma dúvida menor torna-se uma questão cotidiana. As referências a Dilma terão de ser precedidas do título que ela conquistou. Afinal, como Dilma Rousseff deverá ser tratada em seu novo posto?

    Em princípio, como ela quiser. Não há norma na língua que defina uma das formas como errada, nem mesmo menos correta. O professor de língua portuguesa e apresentador de TV Pasquale Cipro Neto diz que a terminação “nte” vem do latim e é comum nas línguas neolatinas, como o português, o espanhol e o italiano. Ela indica o executor de uma ação, normalmente tornando a palavra invariável quanto ao gênero. Por isso, dizemos “o gerente” para homens e “a gerente” quando uma mulher ocupa a função. É o que em português chamamos de substantivo de dois gêneros.

    “No caso de ‘presidenta’, talvez pelas conquistas das mulheres em vários territórios, surgiu esse uso, que os dicionários acolheram”, diz Pasquale. “Os três maiores dicionários da língua portuguesa, o Houaiss, o Aurélio e o Aulete, já registram ‘presidenta’ como equivalente de ‘a presidente’, ‘mulher que preside’. As duas formas estão corretas.”

    Dilma tem simpatia pela palavra presidenta. Mas, quando o assunto é língua, nem sempre as determinações oficiais são seguidas.

    A língua é construída diariamente, pelo uso que dela fazem aqueles que a falam e escrevem. Se até hoje a forma “a presidente” esteve disseminada na imprensa e na literatura brasileiras e espelhou uma realidade quase sem mulheres, um cenário protagonizado por uma delas pode inaugurar uma tendência, a das presidentas. Como já houve a oportunidade das doutoras, das ministras… “Vai ser o uso que de fato vai definir o termo. Como acontece na Argentina, em que Cristina Kirchner faz questão de ser ‘la presidenta’, não vai haver saída que não seguir a vontade da própria eleita”, diz Pasquale Cipro Neto.

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