Jornalismo ou laboratório de manipulação?

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Um dia desses uma colega me perguntou: o que você tem contra as assessorias (de imprensa/comunicação)? Ela, claro, assessora, e competente, diga-se de passagem. Nem por isso, menos afeita ou propensa a algumas práticas bem comuns na área, que precisam ser nitidamente percebidas por um profissional da redação.

O experiente Alberto Dines defende que há pelo menos três leituras bem demarcadas sobre a relação entre imprensa e assessorias de comunicação. A visão otimista estabelece que esses dois pólos atuam de forma cooperativa, respeitando os limites, funções e objetivos de cada um.

O contrário se dá na perspectiva pessimista, que coloca assessorias e imprensa em lados opostos. Nesse sentido, tentativas de plantar notícias, explorar a falta de recursos dos veículos, a incompetência, a boa ou a má-fé de repórteres, bem como tirar proveito da velocidade e timing da operação jornalística para evitar checagens são apontadas como algumas das estratégias adotadas. Ou seja, um cenário afeito a infrações morais, cívicas e também à cumplicidade criminal.

A subversão máxima de todos os princípios éticos é o que caracteriza o ponto de vista dramático. A ideia é que o poder do assessorado – econômico ou político – é usado para intimidar, calar e modificar a informação ou opinião de determinado veículo em benefício da causa da assessoria. Ou seja, os jornalistas estariam a serviço do antijornalismo.

Como na vivência da profissão, já provei das três versões, não consideraria a última tão dramática assim. Sobretudo para quem faz jornalismo no interior, essa interpretação é bem realista. Tem jornal que é gilete press de cima à baixo. Parece mais um outdoor ou Diário Oficial.

Aí alguém pode questionar: a culpa é dos assessores? Claro que não. (Ir)responsabilidade do veículo de comunicação que se sujeita a esse tipo de expediente. Todavia, negar que as assessorias passaram a influenciar a agenda midiática de forma decisiva nos últimos anos vai de encontro à própria realidade.

As redações tornaram-se dependentes das informações produzidas pelos assessores de imprensa, sobretudo quando mostram capacidade para atender demandas e fornecer dados adaptados aos interesses dos veículos de comunicação e da própria organização a qual atendem. E esse papel estratégico faz com que grande parte dos jornalistas esteja, hoje, no segmento extra-redação.

Não existem dados precisos, mas estima-se que pelo menos metade dos jornalistas existentes no Brasil atue em assessorias de imprensa, empresas de iniciativa privada, entidades, entre outros setores afins. Em São Paulo, o percentual chegou a 63,62% dos profissionais em atividade no estado em um levantamento feito pelo sindicato da categoria em 2005. A maioria atraída por melhores condições de trabalho e, sobretudo, salários bem mais atrativos do que os que são pagos atualmente pelas empresas jornalísticas.

A questão-chave, portanto, não é buscar uma posição contrária ou a favor das assessorias de imprensa. A demanda está posta. O mínimo que podemos fazer, então, é não aceitar que as regras mercadológicas imperem sobre o compromisso ético com a informação.

A democracia em construção no Brasil passa inevitavelmente pela mediação dos meios de comunicação. Nesse sentido, as assessorias de imprensa tanto podem contribuir para o seu exercício, bem como pela orientação do cidadão, quanto podem tornar o cenário ainda mais obscuro por meio da manipulação da notícia.

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