CIDADES, ENCHENTES E O MINISTRO

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O sinal de alerta vem da natureza, mas não está nela a origem do drama vivido pelas cidades castigadas pelas enchentes nos últimos dias. De acordo com os dados da Defesa Civil, só em Minas, mais de 140 municípios foram atingidos desde o início do período de chuva, em outubro do ano passado, afetando 2,1 milhões de pessoas, equivalente a toda população de um estado como Mato Grosso do Sul.

No século XVIII, a filosofia iluminista concebia o conceito de cidade como virtude. E de lá pra cá, o urbanismo passou a predominar com seu poder em construir um modo de vida que encanta e influencia as populações humanas: o modo de vida moderno. Todavia, com a contribuição da falta de planejamento e do crescimento desordenado, os aglomerados urbanos tornaram-se zonas críticas, que canalizam, contraditoriamente, a riqueza do capital e a pobreza estrutural produzida voluntariamente pelo mundo globalizado.

Ao mesmo tempo, em função da exploração predatória dos recursos naturais e dos múltiplos agentes urbanos poluentes, como indústrias, veículos e o próprio ser humano, questões ecológicas ocupam lugar central no debate público. Aliás, por causa das cidades, transformaram-se numa problemática mundial.

Notoriamente, o “Estado-Providência” não tem dado conta desse e de outros dilemas vividos pelo urbanismo moderno, o que só provoca a exacerbação das desigualdades e o processo de exclusão social. As intempéries climáticas não escolhem, claro, classe social, mas são bem mais nefastas para quem vê o pouco que tem descer rio abaixo. Até mesmo porque a própria dinâmica urbana inclui e segrega determinados segmentos da população conforme o status que ocupam, destinando aos mais pobres, em geral, as regiões ribeirinhas, encostas e topos de morro.
O cenário agrava-se ainda mais tendo em vista que as decisões políticas no Brasil seguem o velho manual do clientelismo, como dificilmente vai conseguir provar o contrário o ministro pernambucano Fernando Bezerra, que destinou 90% das verbas para prevenção e combate de desastres naturais, como enchentes, para o seu estado.

Fica patente que o que falta não são projetos de prevenção contra cheias por parte dos municípios país afora. Uma disparidade dessas fere, em primeiro lugar, o bom senso, a moralidade e a razoabilidade da administração pública. A sorte – se é que há alguma – é que o tiro saiu pela culatra, pois a própria situação de calamidade nas cidades atingidas no Sudeste fez com que a informação viesse à tona. Do contrário, pelo critério do Ministério da Integração Nacional, a maioria das cidades prejudicadas recolheria os próprios escombros, aguardando migalhas na periferia do compadrio político.

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