Bola nas costas

0
52
lauro-moraes

Um ex-militante partidário dispara: ministro do Esporte comanda esquema de desvio de verbas na pasta. Em seguida, a notícia na imprensa já é de um rombo de 40 milhões de reais nos últimos anos. A presidenta afirma que o governo está fundado na presunção da inocência, mas pede explicações; a oposição o afastamento. O suspeito volta às pressas do México. Começa pra valer a sabatina – no Congresso, no Palácio do Planalto, na mídia. Como dizia o slogan: “Aconteceu, virou manchete”. E Orlando Silva é a bola da vez.

Mesmo negando as acusações e assegurando que não há nem haverá provas contra si, é inegável que o prejuízo político entrou em campo, e de sola. E nada pior do que enfrentar um adversário que não tem rosto, bandeira ou cores pra defender. Não é o policial militar João Dias o principal algoz do ministro. Duro mesmo é encarar o elevado grau de escrutínio público.

Em momentos como esse que se percebe a fragilidade dos atores políticos frente ao poder e as transformações da visibilidade. Antes da mídia, candidatos e ocupantes de cargos públicos eram invisíveis para a maioria das pessoas. Com a ampliação do reconhecimento e da publicidade na esfera política, ficou mais fácil notabilizar os representantes do poder, bem como seus atos e futuras pretensões. Contudo, aumentou também a pressão da opinião pública.

As implicações diretas desse processo culminaram, inclusive, com uma mudança na cultura jornalística nas décadas de 1960 e 1970, que tornou o escândalo um fator decisivo na vida social. A ênfase na reportagem investigativa rompeu barreiras que impediam a divulgação de determinados segredos do poder, colocando em jogo a reputação e a confiança dos atores políticos.

Com efeito, a visibilidade é hoje um importante mecanismo de controle. E quanto maior, maiores os riscos aos quais estão expostos os figurões da política. Que o diga Orlando Silva. Com a incumbência de preparar o país para Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas em 2016, o Ministério do Esporte se tornou uma vitrine recheada de prestígio e recursos. O ministro, no entanto, vê-se na iminência de cair na tabela.

Para a maior parte dos brasileiros, parece algo novo. Porém, a suspeita de irregularidades na pasta é antiga. Só em 2008, a ONG Bola Pra Frente – agora com o nome Pra Frente Brasil – recebeu mais de 8,5 milhões de reais. Naquele ano, a entidade só perdeu no ranking de repasses para o Comitê Olímpico Brasileiro (R$ 29.106.832,00) e a Confederação Brasileira de Futebol de Salão (R$ 24.996.500,00), responsável pela organização do mundial da modalidade em Brasília e no Rio, no ano de 2009.

Curiosamente, a ex-jogadora de basquete Karina Valéria Rodrigues elegeu-se vereadora de Jaguariúna, no interior de São Paulo, no mesmo ano em que a ONG da qual é dirigente recebeu essa “bolada” do governo federal. Detalhe significativo: eleita pelo PCdoB, partido de Orlando Silva.

Se o ministro tem ou não participação direta nas fraudes denunciadas até então, é o que vamos ver no decorrer do jogo. Mas, que ele e o PCdoB estão com as barbas de molho, isso é evidente. Afinal, os indícios são fortes e cinco ministros já caíram em dez meses de governo. Em todos os casos, Dilma demonstrou apoio de início, porém, todo mundo sabe o que ocorreu depois.

Ou o ministro comprova que tudo não passa de especulação, perseguição política, intriga de militante traído – como quiser classificar, ou em vez de tocar a bola pra frente, vai ser o próximo a receber uma nas costas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here