AQUI, TODO DIA É DIA DE FINADOS

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A maneira de encarar a morte está muito relacionada ao grau de individualismo de uma sociedade. As comunidades dirigidas pela ideologia individualista, como nos países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos, tendem a esquecer o morto e ressaltar a morte, pois além de revelar uma postura destemida diante desta, a rememoração do morto vai contra a ideologia do progresso e da fragilidade dos laços sociais.

Nas sociedades tradicionais, por sua vez, entram em jogo outros conceitos. Nesse sentido, a proximidade entre vivos e mortos mostra o valor das relações, que sobrevivem ao tempo e a própria morte. O finado passa a ser lembrado, homenageado e evocado. Ele é preservado como se ainda fosse membro da família.

Por isso, os mortos no Brasil não desaparecem. Vivem numa espécie de mundo paralelo, de onde podem retornar espiritualmente e até mesmo influenciar a vida dos vivos, sobretudo de seus entes mais próximos. Os vivos, por sua vez, prezam por esse contato com almas e entidades espirituais, que funcionam como mediadores entre este e o “outro mundo”, como diria a antropólogo Roberto DaMatta.

Essa mentalidade brasileira profundamente mística é uma herança da mescla de diversas tradições religiosas no Brasil – ibérica, européia, indígena e africana. Todas carregavam como traço comum a concepção mágica do mundo, ou seja, preconizavam um elo direto entre mundo espiritual, mundo natural e cotidiano. E é interessante observar que por detrás desse imaginário místico está justamente aquilo que chamamos de jeitinho brasileiro.

Os rituais relacionados aos mortos, geralmente, tentam promover uma renúncia deste mundo com todas as suas mazelas. A sociedade se junta em torno de valores atribuídos ao sobrenatural. Entretanto, esses momentos não se restringem ao plano metafísico. Antes, possuem forte apelo concreto, relacionando a vida cotidiana e o transcendente.

A superstição, a mandinga, o apelo aos santos, a conversa com o parente falecido quebra a rigidez das regras, que por aqui quase sempre não são bem-vindas. Quando esgotadas as possibilidades de driblá-las no plano natural, em último caso, a saída é recorrer ao “outro mundo” – patrono de todas as causas no universo social brasileiro.

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