A VERDADE SOBRE O MITO

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Heróis, sereias, ninfas, titãs, centauros, quimeras. Verdade ou mentira? A tradição de entender o mito como algo puramente fantasioso é antiga. Platão já não gostava dos poetas porque dizia que eles mentiam. A filosofia foi a primeira tentativa de explicar o mundo e os fenômenos de forma racional e não mitologicamente. Porém, mesmo se consolidando como um dos mais respeitáveis saberes, não substituiu a mitologia.

Nem mesmo o advento da ciência foi capaz de extirpá-la, pois o mito é aquilo que nunca aconteceu para poder acontecer sempre. Por isso, seu significado não se esgota. Na proporção em que a civilização avança, os mitos são retomados, novos sentidos são atribuídos, o que não ocorreria se fosse uma narrativa histórica, que é situada no tempo.

Para que a sociedade grega construísse seus conceitos e interpretações do mundo real, por exemplo, serviu-se do mito dos deuses. Essas narrativas falam da natureza mais profunda do ser humano, tanto que hoje são aplicadas à Psicanálise como instrumento terapêutico.

Como qualquer outro gênero literário, tal qual a parábola e a fábula, não quer dizer que o mito seja uma mentira. Apenas passa uma mensagem da forma como as pessoas compreenderiam. Uma tentativa de explicar alguma coisa que é verdade, mas não aconteceu da forma como está registrado. O importante é entender o contexto no qual foi escrito.

É desse ponto de vista que uma vertente formada por teólogos e estudiosos das Ciências da Religião compreende a história da Criação como um mito, o que contrapõe, claro, a teologia tradicional. Todavia, se não fosse em linguagem mitológica, como essa narrativa bíblica se renovaria, mantendo-se viva por milhares de anos.

Dizer que os sete dias do Gênesis correspondem às eras geológicas – como ainda defendem certas correntes conservadoras – é semelhante a discutir se a cobra falava ou não, ou questionar quem casou com Caim. Não se faz para um mito a mesma pergunta que se faz para a narrativa histórica. Mito se trata como mito, respeitando-se seu ritmo e símbolos peculiares.

Se daqui a três mil anos, alguém pegar a obra Sítio do Pica Pau Amarelo, supondo que tudo o que está descrito lá seria possível, ao pé da letra, vai acreditar que sabugo de milho e animais falavam nesta época. Muitas pessoas tratam assim o livro de Gênesis: como uma fotografia de quando o mundo foi criado. Contudo, nem a própria ciência é uma fotografia. Ou o que seria mais o Big Bang senão uma narrativa científica para explicar algo que ninguém viu? Como vamos ficar sabendo o que de fato aconteceu? Nunca! Nenhum de nós estava lá.

Nesse caso, a diferença que existe entre a narrativa científica e a religiosa é que a primeira foi construída com base em uma série de fatores observáveis, enquanto a última foi mitológica desde a sua concepção. Não se pode dizer que o autor bíblico estava falando literalmente, a não ser em termos de fé.

Em ambas as situações, temos que começar a nos acostumar com a possibilidade do não saber. Talvez estejamos tão admirados com as maravilhas proporcionadas pelo acúmulo do conhecimento que não concebemos a idéia da sua ausência.

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