“Uma” igreja em constante reforma

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Quando Martinho Lutero (1483-1546) escreveu suas Noventa e Cinco Teses, em 1517, criticando as políticas papais na época, certamente não imaginava o movimento que eclodiria a partir de suas idéias. O monge agostiniano condenou veementemente a cobrança de indulgências e questionou ritos e dogmas sagrados para a Igreja Católica, como a confissão, o celibato e a veneração de santos.

Ignorado e reprimido, seus argumentos ganharam força fora da igreja. Se o Vaticano não o escutava, muitos príncipes e governadores despertaram interesse pelos ideais protestantes, principalmente porque defendiam a supremacia do Estado sobre a Igreja. Henrique VIII da Inglaterra, Gustavo Vasa da Suécia e a maioria dos príncipes da Alemanha rejeitaram a autoridade do papa e abriram as portas para o protestantismo.

Quase 500 anos depois, não dá mais pra ignorar os efeitos da Reforma. Os “protestantes” deixaram pra trás o papel de coadjuvantes, crescendo em número e representatividade social. Se para o Brasil colonial, por exemplo, passaram despercebidos, hoje existe um evangélico a cada cinco brasileiros. Há seis décadas, suas igrejas experimentam o maior crescimento entre todas as religiões no país: de 7,8 milhões de fiéis em 1980, pularam para 38,5 milhões em 2009, representando 20% da população.

É impossível, no entanto, falar em uma ‘Igreja Protestante Reformada’, e muito menos única, como a Católica. As que se vinculam diretamente à tradição da Reforma do século XVI hoje são minoria. Compõem esse grupo, que constitui o chamado Protestantismo Histórico, as igrejas Congregacional, Presbiteriana, Batista, Metodista, Episcopal e Evangélica Luterana. Porém, movimentos carismáticos dentro dessas denominações deram origem a uma variedade de igrejas, como Batista Renovada, Presbiteriana Renovada, Metodista Wesleyana e Congregacional Independente.

Se não bastasse, a “babilônia” evangélica inclui também os pentecostais, que dão ênfase às manifestações do Espírito Santo, como curas e outras experiências místicas. Por apresentarem doutrinas e liturgia distintas das adotadas pelo Protestantismo Histórico, chegaram a ser hostilizados. Contudo, estão exatamente entre as propostas religiosas que mais crescem no cenário evangélico.

Com o êxodo rural, o crescimento urbano e industrial e todas as transformações culturais pós Segunda Guerra Mundial, o Pentecostalismo conseguiu integrar e satisfazer os brasileiros que estavam perdidos em meio às mudanças sociais. Essa espontaneidade e flexibilidade na adaptação à cultura popular deram margem ao surgimento de muitas denominações, entre as quais estão Assembléia de Deus, Congregação Cristã e Igreja do Evangelho Quadrangular.

A partir das ações missionárias do início do século XX, as práticas pentecostais não só foram consolidadas no país, como produziram frutos nativos. O neopentecostalismo emergiu nos subúrbios do Brasil, mostrando-se ainda mais versátil. A “teologia da prosperidade” foi um dos principais pilares introduzidos por esse grupo, que tem como representante mais proeminente a Igreja Universal do Reino de Deus.

Pra não excluir ninguém, há também as denominações consideradas seitas pelo protestantismo tradicional. Todas essas agremiações nasceram nos Estados Unidos ao longo do século XIX, resultado de revelações místicas de líderes “iluminados”, como Testemunhas de Jeová, Adventistas do Sétimo Dia e Santos dos Últimos Dias – Mórmons.

Como se pode notar, de reforma o protestantismo entende. É vasto o número de denominações que surgiram desde Lutero e, muitas vezes, difícil classificá-las. São tantas as diferenças que o termo “evangélico” já não define bem. Afinal, quem é este povo? Incertezas à parte, uma coisa não há como negar: ele está aí e em franco crescimento.

3 COMENTÁRIOS

  1. Lauro, muito bom o texto.
    Mas deu um tom de catolicismo nele… aquela revoltazinha de quem tá perdendo o jogo – ou os fiéis -, sabe? (risos)
    Uma coisa aprendi nesses poucos anos de vida: Deus é muito bom. Religião, pra mim, nenhuma é boa.
    Deus é um rio que os homens tentam conter com uma represa chamada: “religião”. Se vc pagar ou se submeter aos caprichos deles (os líderes), tem água pra vc e sua família, se não “deus vai te castigar”, “vc vai pro inferno” e todas esses delírios que dizem por aí.
    E olhe, a escravidão não vem só pelo dinheiro não…
    Nessa sua pesquisa, vc também deve ter visto o crescimento de agnósticos e ateus. É MUITO maior do que o crescimento dos chamados ” evangélicos” e “protestantes”. Na europa há vários países em que mais de 60% da população são ateus ou agnósticos.
    O problema da religião é que ela torna o homem escravo de outros homens e a manipulação psicológica deixa a pessoa paralisada diante de seus problemas – ela (a pessoa) fica sempre esperando que um milagre aconteça e a tire de sua situação ruim. E, cá entre nós, “milagre” é uma coisa difícil de acontecer.
    Esse apego religioso que temos, vem das raízes africanas. OS países mais pobres são mais religiosos. Os países europeus e alguns asiáticos acreditam no trabalho e na ação.
    No Brasil, onde a grande maioria da população não tem condições ou não é incentivada a se formar intelectualmente, acredita-se em tudo, até em saci pererê, cuca, curupira, advogados, mecânicos, comerciantes, jornalistas, e até politicos bonzinhos. (risos)
    Fui um religioso católico durante 20 anos e um evangélico fervoroso durante 10 anos. Tenho experiência no ramo.

    • Mas deu um tom de catolicismo nele… aquela revoltazinha de quem tá perdendo o jogo – ou os fiéis -, sabe? (risos)
      Como se isso fosse uma competição. Isso parece um jogo de poder entre as igrejas. A catôlica errou bastante, mas nunca como na História desse mundo, se matou tanto em nome do evangelho, e se roubou tanto dos incautos. Nesta os ditos neo-pentecostais que vivem pela teoria da prosperidade que o digam não é??!!! Mas saiba que a reforma protestante somente se deu por motivos claramente burqueses da epoca, não venham com essa que os tinham interesse espiritual e sim, totalmente FINANCEIRO DA BURQUESIA. 

    • Obrigado pelas considerações, Rico. Tem toda razão a respeito do crescimento de ateus e agnósticos. Mas, essa é uma realidade bem mais presente na Europa do que no Brasil. Os últimos Censos revelaram o crescimento do número de evangélicos, especialmente no rol dos neopentecostais. O ritmo reduziu bastante no Censo 2010 em relação ao de 2000. Porém, num país tradicionalmente católico, ainda é aumento significativo.

      Quanto ao tom do texto, já apreciei comentários com as duas versões: meio catolicista, meio protestante. Algumas pessoas até duvidaram que sairia na Tribuna do Leste, por entenderem que favorecia o protestantismo. Enfim, isso só mostra que tratar de religião sempre dá margem ao debate, à controvérsia. E ao contrário do que muitos defendem, penso que religião deve ser discutida sim. O que não se discute é fé, que é inapreensível.

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